O novo jogo do Banco Pan

Banco de varejo do BTG Pactual costura uma associação com o mineiro BMG, para criar um novo participante ativo no crédito ao consumidor

Com uma óbvia diferença, as trajetórias dos bancos BMG e Pan são muito parecidas. Ambos passaram por períodos difíceis e profissionalizaram sua gestão. A diferença é que o BMG ainda pertence a seus fundadores, a família mineira Pentagna Guimarães, ao passo que o Pan, fundado pelo apresentador Sílvio Santos, mudou de dono para não quebrar, em 2010. Agora, o Pan poderá mudar de dono novamente. Executivos ouvidos pela DINHEIRO afirmam que os dois bancos estão negociando uma junção de suas atividades.

O negócio poderá unir duas estruturas complementares. De um lado, o fortemente capitalizado BMG, que encerrou o terceiro trimestre de 2015 com R$ 3,46 bilhões em caixa. O banco mineiro iniciou uma transição profunda em 2012. Especializado na concessão de empréstimos consignados, ele enfrentava uma crônica escassez de recursos que travava seu crescimento. A saída foi costurar uma joint-venture com o Itaú, que forneceria os recursos. Dois anos depois, em 2014, os negócios ficaram com o Itaú e o BMG passou a desfrutar dos dividendos de uma empresa que tinha R$ 29,5 bilhões em empréstimos concedidos em 30 de setembro.

Isso alterou profundamente o BMG. Antes inegavelmente popular, o banco transferiu sua sede para São Paulo, na sofisticada região da Faria Lima, e contratou figurões como Antonio Hermann e Alcides Tápias. O próprio perfil publicitário mudou. Em vez de patrocinar times de futebol, o banco agora estampa sua logomarca nas camisas de tenistas como Marcelo Melo e Bruno Soares. “O BMG está precisando de um novo grande negócio”, diz um analista de um banco internacional. Isso pode ser oferecido pelo Pan.

Sua plataforma de varejo integrou a estrutura de venda de financiamentos imobiliários da Brazilian Finance and Real Estate, adquirida no fim de 2012, e que possui 108 pontos de venda próprios. O banco também tem mais de 12 mil correspondentes e representantes em concessionárias de veículos, 3,2 milhões de clientes e quase dois milhões de cartões emitidos. Até agora os resultados foram modestos, o que se reflete no preço das ações. Listado em Bolsa, o Pan está sendo negociado com desconto.

Na quinta-feira 7, suas ações fecharam a R$ 1,99, correspondentes a 51% do valor patrimonial. Isso representa um avanço: ao longo de 2015, em média, as ações estavam cotadas a 41% do seu valor de livros. Por que tanto desconto para um banco que vem melhorando seus resultados ao longo dos últimos anos? As causas são duas. A primeira é que, mesmo faturando mais, o Pan só deverá voltar ao lucro em termos anuais quanto contabilizar os resultados do quarto trimestre. A outra é o controlador.

André Esteves, dono do BTG Pactual, construiu uma trajetória estelar no mundo dos grandes negócios. Já no varejo, seu desempenho é menos brilhante. “A maior parte dos diretores do Pan veio do BTG”, diz o analista. “Eles são feras para fechar negócios bilionários, mas têm problemas para ganhar dinheiro no varejão.” Nem mesmo a experiência de José Acar, principal executivo do Pan, que chefiou o BCN e chegou a ser cotado para a presidência do Bradesco, conseguiu reverter o quadro. A situação se agravou com a prisão temporária de Esteves, em novembro passado, devido à operação Lava Jato.

O incidente maculou a imagem do BTG Pactual. Suas ações recuaram de R$ 30 imediatamente antes da prisão para R$ 14,60 na quinta-feira 7, e o banco perdeu bilhões de reais em fundos. Isso obrigou o BTG a vender algumas participações para garantir sua solvência. A rede de hospitais D’Or foi adquirida pelo fundo soberano de Cingapura, e o Itaú comprou a participação na Recovery, maior empresa brasileira de recuperação de créditos vencidos. Outro ativo em negociação é a rede de estacionamentos Estapar, que interessa a fundos de private equity como o Gávea e o americano KKR.

Agora, o próximo item pode ser o Pan. Não por acaso, desde que os rumores começaram a circular, na virada do ano, as ações subiram cerca de 29%. Ironicamente, esse é um entrave para a conclusão do negócio. “Um dos pontos que está emperrando as conversas é a forma de calcular o preço a ser pago”, diz um executivo. Se vender o Pan com base nas cotações em Bolsa, o BTG terá de amargar um resultado bem inferior ao que obteria se as conversas tivessem por base o valor patrimonial. “Comprador e vendedor sabem fazer contas e a briga vai ser boa”, diz ele.

O investidor que quiser arriscar a compra dessas ações tem de saber que são papéis extremamente voláteis. O cenário para os bancos tem sido adverso devido às incertezas da economia, os especialistas esperam um aumento da inadimplência do varejo nos próximos três trimestres e somam-se a isso os solavancos dos papéis de uma empresa cujo controle está sendo negociado. No entanto, unidos, Pan e BMG poderão ganhar um bom dinheiro no varejo no longo prazo. “Só para quem tem muita paciência ou, caso contrário, gosta muito de risco”, diz o analista. Procurados, os bancos não comentaram o assunto.

(Fonte: Isto é dinheiro, acesso em 08/01/2016)


Postado em 08/01/16 às 22:48

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